Análise – António José Seguro vs. António Filipe

António José, Seguro. António Filipe, nem por isso.

Aos 20 de dezembro de 25, pelas 21 horas, decorreu, na TVI, o debate entre os candidatos às eleições presidenciais de 2026, António José Seguro e António Filipe. Este encontro contou com a moderação do jornalista José Alberto Carvalho.
Logo após as devidas saudações e demonstração mútua de profundo respeito, os candidatos começam por manifestar a posição face ao caso Spinumviva, cujo caso culminou sem que fosse detetada ilicitude, que entrou em convergência. Tanto António José Seguro como António Filipe concordaram em apoiar o atual Governo no exercício das suas funções, salvo casos de suspeição que exijam medidas extraordinárias. Este espírito de cooperação demonstra responsabilidade e ponderação, visando uma governabilidade estável e desonerada.
José Alberto de Carvalho, ainda no âmbito de situações de conflitos de interesses público-privados, questionou os disputantes acerca da participação de Luís Marques Mendes no setor empresarial, ao qual os mesmos entraram, mais uma vez, em consonância, defendendo um escrutínio público de tal atividade caso levante assim se justifique. Posto isto, mantém-se o comportamento pacificador.
Destabilizando este clima de concordância, António Filipe agrupa António José Seguro, Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes como candidatos neoliberais, afastando Seguro da esquerda. Esta ideia é manifestamente redutora, já que estas eleições não visam observação de espectros políticos, dada a inevitável cooperação com o Governo, independentemente da força política que o constitua.
Em tom provocador, António Filipe indicia Seguro quanto à sua alegada inércia perante a proposta do atual Governo de reforma laboral. Este ataque é reflexo de desconhecimento, tendo em conta que Seguro defende publicamente os direitos dos trabalhadores e, não só neste âmbito, mas em todos os modos, a igualdade de rendimentos entre mulheres e homens.
O presente debate foi marcado pelo sucessivo apelo ao passado, dando uma ilusão de possibilidade de implementação de medidas com efeitos retroativos, o que é um absurdo. António Filipe traz à tona situações do passado, como a Troika, imputando a Seguro, sem qualquer nexo, as consequências devastadoras que a mesma acarretou. Tudo isto mostra que António Filipe não visiona o futuro do país e encontra-se aprisionado num passado sombrio cujo rumo não poderá alterar.
Deste encontro não nos foi possível espremer medidas e formas de atuar enquanto Presidente da República por parte dos candidatos porquanto ter-se assemelhado a um debate entre aspirantes a Primeiro-Ministro e a um bombardeamento de acusações de António Filipe contra Seguro que, de forma bastante inteligente e perspicaz, contra-alegou.
Já nos momentos finais, abordou-se o tema da invasão da Ucrânia pela Rússia. António José Seguro defende a intervenção da União Europeia com o objetivo da instauração da paz. Em contrapartida, António Filipe não precisou a sua posição quanto à temática, discursando de forma incoerente, afirmando que esta catástrofe poderia ter sido evitada, suscitando, embora indiretamente, uma possível “culpa” da Ucrânia no estabelecimento da guerra. Esta complacência com o regime russo revela um comportamento passivo e sem espírito crítico face às ações de uma força política ideologicamente compatível.
Em resumo, este debate primou muito pela disputa do estatuto de candidato de esquerda, ignorando o que realmente seria interessante reter quanto à prestação dos candidatos enquanto Presidente da República. Não obstante, obviamente Seguro venceu este debate pela sua postura exímia e respeitadora, procurando debater e não acusar. António Filipe, por sua vez, faz parecer que deseja ser um Presidente da República que, ao mesmo tempo, é governador de um Portugal do antigamente e não do presente nem do futuro próximo.