A experiência vs. a simplificação da mensagem
Num debate entre o centro de esquerda e centro de direita, encabeçado respetivamente por António José Seguro e João Cotrim de Figueiredo podia-se perspetivar um choque ideológico claro. Analisado o debate na integra é possível apurar que o debate foi marcado por três pontos importantes: tensão, surpresa e amadurecimento.
No que diz respeito a António José Seguro, o debate deste apoiou-se na ideologia política que o caracteriza e foi através dessa perspetiva que manteve uma linha de pensamento tranquila e firme. Quanto a João Cotrim Figueiredo, este teve necessidade de um amadurecimento intensivo ao longo do debate. Possivelmente, pela forte responsabilidade de enfrentar a vasta experiência de AJS, Cotrim de Figueiredo teve de reprogramar a estratégia retórica interrogativa para uma retórica afirmativa para suprimir as críticas lançadas por Seguro.
A meu ver, a introdução de ambos os candidatos esteve aquém daquilo que ambos representam. Cotrim de Figueiredo aproveitou os primeiros sessenta segundos para dar uma maçã envenenada a Seguro, iniciou por destacar qualidades deste candidato e, no momento seguinte, de lhe retirar competências na candidatura ao cargo mais alto da nação. António José Seguro aproveitou a sua introdução para dar destaque a André Ventura. Embora tenha sido para desmentir factos, na minha opinião não é o local certo para o fazer, visto estar a virar os holofotes para um adversário.
O ponto um da ordem de trabalhos incidiu sobre a alteração da lei laboral, onde António José Seguro se apoiou na opinião deontológica do Partido Socialista, reforçando que as alterações à lei laboral contribuirão para a precariedade social. Já Cotrim de Figueiredo apoia, em parte, alterações a esta lei.
De seguida o tema introduzido por Vítor Gonçalves foi a saúde. Neste ponto, Cotrim de Figueiredo dominou AJS com questões concretas para um tema demasiado abrangente. Confrontado com este tema, José Seguro defendeu-se com o pacto da saúde. Para os ouvintes não conhecedores deste pacto, Seguro não foi capaz de suprimir o contra-ataque de Cotrim de Figueiredo. Por isso, na saúde, Seguro mostrou-se vago na sua defesa.
Apesar de AJS ter sido dominado na saúde, Seguro encostou Cotrim de Figueiredo à parede com a lei da nacionalidade. O candidato liberal, em comunicado à comunicação social na Golegã, proferiu que promulgava esta lei e, no debate, concordou que a lei era inconstitucional. Assim que este se apercebeu da divergência de discursos, fez-se um silêncio ensurdecedor no estúdio como se AJS tivesse feito um “KO” técnico a Cotrim de Figueiredo.
Ainda se falou no futuro do país e da proximidade do Presidente da República com o Governo. Ambos reconheceram que a nação precisa de um Presidente da República mais próximo do Governo, de gerar mais riqueza e afetação jovem ao nosso país. Além disto, os candidatos enalteceram os jovens talentos portugueses. Contudo, no que diz respeito à execução de ideias, ambos ficaram aquém.
Para fechar, ambos partilham a opinião de que se encontra em declínio a nova estratégia de segurança dos Estados Unidos da América.
Quanto a avaliação global, não houve convergência, mas sim clarificação ideológica. O debate foi útil para o eleitorado perceber dois modelos distintos da sociedade. António José Seguro venceu no plano da consistência e experiência. João Cotrim de Figueiredo venceu no plano da assertividade e capacidade de simplificação da mensagem. Pode apurar-se que estivemos perante um empate técnico com ligeira inclinação para AJS.
