Análise – António José Seguro vs. Gouveia e Melo

Voto Seguro ou Tiro no Escuro?

O debate entre António José Seguro e Henrique Gouveia e Melo começou como tantos debates presidenciais: ataques ao caráter do outro, como se os primeiros dez minutos fossem um casting para “quem merece Belém”, e não para explicar o que fariam lá dentro.

Seguro foi direto: votar em Gouveia e Melo é um tiro no escuro. Não apenas pelo lançamento da candidatura em plena campanha legislativa – um timing criticado por todos – mas sobretudo porque o Almirante ainda não disse qual é o seu pensamento político. A ideia de “vir aprender no cargo” pode funcionar num estágio de verão, mas não é tranquilizadora quando o cargo é o de Chefe de Estado.

Esse défice ficou especialmente evidente num dos momentos mais constrangedores do debate, quando Gouveia e Melo afirmou que Seguro tinha aprovado “um Orçamento de Estado com várias leis”, sendo prontamente corrigido por Seguro: o Orçamento de Estado é uma lei. Um lapso técnico, sim, mas que só reforçou a percepção de inexperiência. Daqueles momentos em que o país inteiro faz uma careta coletiva.

Do lado do Almirante, os ataques centraram-se em desvalorizar Seguro, recorrendo a declarações de Mário Soares sobre suposta falta de confiança, isso sim, uma forma clássica de “política do pequenino” para atacar. Mais tarde, ele usou a mesma desculpa da política do pequenino para fugir a perguntas políticas de verdade, desviando-se das questões que realmente importam. Ironicamente, critica a “pequena política” enquanto pratica exatamente isso.

Na economia, o Almirante tocou em tudo: dependência do turismo, baixos salários, aumento da liberalização, novo contrato social, novo plano da saúde, Estado eficiente. Um verdadeiro menu degustação de boas intenções. Pena que seja sem receita: faltou a ideia que ligasse tudo.

Seguro respondeu com método: temos um mercado laboral diversificado, precisamos de uma economia sustentável, mais apoio às PME, mais foco na qualidade de vida dos jovens e salários que acompanhem o custo de vida. Insistiu em política baseada em estudos e evidência, não em frases sonoras. Num debate de slogans, foi quase revolucionário trazer lógica e dados ao centro.

Na Defesa, Gouveia e Melo teve o momento mais problemático. Ao afirmar que “não é europeísta” e justificar a sua posição dizendo que Portugal sempre seguiu a política de “um pé na Europa e outro no Atlântico” nos últimos 500 anos, tentou transmitir experiência, mas não deixou claro o que isto significa para o futuro. Num contexto de guerra na Ucrânia e da posição cada vez mais errática dos EUA, esta indefinição é problemática para aliados europeus: sem saber qual será a estratégia de Portugal, não há confiança nem previsibilidade. Para um Presidente, tradição histórica não basta, é preciso clareza, direção e credibilidade internacional.

A conclusão, para mim, é relativamente clara: Gouveia e Melo revelou falta de preparação para a complexidade da estratégia política e para o nível de escrutínio que Belém exige. Diz coisas que depois “não era bem isso que queria dizer”, mas num cargo destes não há curvas suaves. Ou se segura o volante, ou se sai da estrada.

Ao longo do debate, a ingenuidade política do Almirante tornou-se cada vez mais visível. Seguro, pelo contrário, mostrou assertividade, imune a ataques pessoais, e a tranquilidade de quem sabe onde está. Menos partidário no tom, mas profundamente ideológico no conteúdo, lembrou algo que hoje faz falta: política não é só convicção — é também método, evidência e responsabilidade.