Último grande confronto antes das urnas: o debate dos 11 candidatos presidenciais
Na noite de 6 de janeiro, a RTP1 transmitiu aquele que foi o único debate televisivo a reunir os 11 candidatos às Eleições Presidenciais de 2026. Com início às 22 horas e duração aproximada de duas horas e meia, o debate marcou o encerramento da fase mais intensa da campanha e funcionou como um momento de síntese e confronto das diferentes visões para o cargo de Presidente da República.
Num contexto político marcado pela fragmentação eleitoral e pela ausência de um favorito consensual, o debate assumiu particular relevância: dificilmente um candidato obterá maioria absoluta à primeira volta, tornando previsível uma segunda volta e reforçando a importância da definição de posicionamentos estratégicos.
Um cenário político excecional
O número elevado de candidatos, 11 no total reflete um momento singular da democracia portuguesa. A diversidade ideológica esteve plenamente representada, desde a esquerda parlamentar à direita populista, passando por candidaturas independentes e figuras oriundas da sociedade civil.
Constituição e sistema democrático no centro do debate
Um dos eixos mais marcantes da noite foi a defesa da Constituição e do regime democrático. Vários candidatos sublinharam o papel do Presidente como garante último da Lei Fundamental, insistindo na necessidade de estabilidade institucional e respeito pelo equilíbrio de poderes.
Neste contexto, ganhou destaque a proposta de Jorge Pinto, que sugeriu um entendimento ou “pacto republicano” entre candidatos do campo progressista, com o objetivo de travar soluções políticas que coloquem em causa direitos constitucionais, o Estado social ou o Serviço Nacional de Saúde. A proposta gerou reações diversas:
- António José Seguro acolheu o espírito da iniciativa, reforçando a sua imagem de candidato agregador;
- António Filipe rejeitou qualquer lógica de substituição ou abdicação, afirmando a autonomia da sua candidatura;
- Catarina Martins desvalorizou a viabilidade prática do pacto, classificando o momento como confuso.
Em contraste, André Ventura adotou uma postura frontalmente crítica, questionando a Constituição atual e defendendo reformas profundas, num discurso que acentuou a clivagem entre visões institucionais conservadoras e abordagens revisionistas.
Segurança, imigração e retórica de confronto
A temática da imigração e da segurança voltou a ser um dos pontos mais polarizadores do debate. Ventura reiterou propostas de maior controlo fronteiriço e endurecimento das leis de nacionalidade, recorrendo a uma retórica de rutura que provocou respostas diretas de vários candidatos.
Por sua vez, Henrique Gouveia e Melo procurou afirmar-se como uma figura de equilíbrio, defendendo controlo e integração, sublinhando que a imigração deve ser gerida com rigor, mas também com responsabilidade social e respeito pelos direitos humanos.
Os momentos de maior tensão verbal ocorreram precisamente nestes temas, revelando estratégias distintas: enquanto alguns candidatos apostaram na moderação e no discurso institucional, outros recorreram à confrontação direta como forma de mobilização eleitoral.
Política externa e papel internacional de Portugal
O debate incluiu também referências à política externa, em particular a crises internacionais recentes. As intervenções revelaram divergências quanto ao equilíbrio entre pragmatismo geopolítico e respeito pelo direito internacional.
Alguns candidatos defenderam uma leitura mais realista das relações internacionais, enquanto outros insistiram na necessidade de Portugal manter uma posição firme em defesa do multilateralismo e da legalidade internacional, coerente com a sua tradição diplomática.
Um debate revelador mas não decisivo
Apesar da extensão do debate, não se registaram mudanças evidentes no equilíbrio da corrida presidencial. O formato, com muitos intervenientes e tempos limitados, dificultou aprofundamentos, mas permitiu observar estilos, prioridades e estratégias.
Ficou clara a existência de três grandes blocos discursivos:
- Candidatos que defendem uma Presidência institucional, moderadora e constitucionalista;
- Candidatos que propõem maior intervenção política do Presidente;
- Candidaturas de rutura, que questionam o atual sistema político.
Conclusão
O debate dos 11 candidatos na RTP1 não produziu vencedores inequívocos, mas cumpriu uma função essencial: expor, de forma clara, as diferenças de visão sobre o futuro da Presidência da República e sobre o próprio regime democrático.
Num momento em que a confiança nas instituições é frequentemente testada, o confronto sublinhou que a eleição presidencial de 2026 será menos sobre personalidades isoladas e mais sobre o modelo de democracia e de Estado que os portugueses desejam preservar ou transformar.
