Decisão Impulsiva ou (manifesta) ausência de decisão: O que querem os eleitores?
Assistimos ontem ao debate dos dois partidos centrais do nosso hemiciclo político, os chamados partidos tradicionais e moderados. Neste debate falou-se das forças de segurança, da política nacional, de economia, do aeroporto, da educação, da saúde e da habitação. No entanto, as propostas foram inaudíveis no meio das interrupções e das acusações trocadas. Luís Montenegro optou por circundar as questões, sem nunca responder e Pedro Nuno Santos mostrou-se mais vivo que nunca.
No início do debate, comentou-se, por incontornável, a manifestação dos polícias em frente ao capitólio. Luís Montenegro optou por se mostrar solidário aos polícias eximindo-se de qualquer outro comentário porque é mais fácil ganhar votos quando somos solidários com todos, em todos os momentos. Por outro lado, Pedro Nuno Santos mostrou-se solidário, mas não deixou de frisar, de forma perentória, que está disponível para negociar, mas que não negoceia sob coação, sublinhando a importância do cumprimento da lei e do respeito pelo Estado de Direito, por aqueles que são o garante da legalidade democrática. Isto, caro leitor, é coragem. Saber ouvir, mas saber impor limites, mesmo quando não seja a resposta politicamente correta.
Isto caro leitor, é coragem. Saber ouvir, mas saber impor limites, mesmo quando nao seja a resposta politicamente correta
Telma Barbosa
Em seguida, Clara de Sousa fez, o que para nós, foi uma das questões mais importantes da noite – se, num cenário de maioria relativa e com um governo já em funções a ter de apresentar, em poucos meses, uma proposta de Orçamento de Estado para 2025, deve ou não o principal partido da oposição deixar passar o primeiro orçamento? Parece uma pergunta inócua e com pouca relevância, no entanto transporta consigo questões como a estabilidade governativa de um país que tem passado por sobressaltos políticos e a responsabilidade de um partido em assumir, ab initio, um compromisso de aceitar um orçamento que desconhece e que pode não ser viável para a saúde da nossa economia. Como no restante debate, Luís Montenegro disse tudo o que faria e não faria, optando por contornar a questão, esquivando-se a respostas concretas e afastando a possibilidade de não obter, pelo menos, a maioria relativa. Por outro lado, Pedro Nuno Santos por “humildade democrática” admitiu, pese embora, afastando esse cenário, que se o PS não ganhar as eleições não apresentará nem viabilizará uma moção de rejeição, mas que, relativamente ao orçamento, não se pode negociar a montante sobre um orçamento que se desconhece.
Ao longo do debate, os candidatos discorreram, conforme antedito, sobre as suas medidas para impulsionar a economia, a emergência no SNS, a crise na habitação e na educação e, ainda deu tempo, para Luís Montenegro, mais uma vez, acusar o Partido Socialista de ter cortado pensões e prometer aumentar o complemento solidário para idosos, para que todos os pensionistas tenham um rendimento igual e igual ao salário mínimo nacional. Tendo Pedro Nuno Santos esclarecido que, conforme já verificado pelo “Polígrafo”, o PS não cortou pensões, explicando a velha querela e relembrando quem foi o partido que, efetivamente, cortou as pensões dos idosos. Sobre este assunto, sempre se diga que, pese embora seja uma forma de reconciliação com os idosos, o aumento para todos os idosos do complemento solidário nos moldes supra referidos, não só não é economicamente viável como seria gerador de enormes injustiças sociais, tratar como igual o que é diferente não é justiça. Além de que, uma medida deste género ser suscitada pela Aliança Democrática é no mínimo irónico.
Continuemos…
O Aeroporto… Onde Montenegro tentou acusar Pedro Nuno Santos de impulsividade e de rebeldia, no entanto, o boomerang voltou e Pedro Nuno Santos afirmou que tentará procurar o acordo não só da AD como de todos os partidos, mas que a falta de acordo não o fará não decidir. Pedro Nuno Santos é isto: a decisão impulsiva e, como uma vez Ricardo Araújo Pereira disse, ele será tão bom ou tão mau consoante acentuarmos as palavras: DECIDE impulsivamente ou decide IMPULSIVAMENTE. Agora resta-nos saber o que os eleitores querem: a decisão, mesmo que impulsiva, ou a ausência de resposta que culmina numa manifesta ausência de decisão.
Agora resta-nos saber o que os eleitores querem: a decisão, mesmo que impulsiva, ou a ausência de resposta que culmina numa manifesta ausência de decisão
Telma Barbosa
Avancemos…
Neste debate ouvimos coisas inacreditáveis, Luís Montenegro acusou Pedro Nuno Santos de não ser Socialista e de favorecimento aos privados. Sejamos honestos, para quem está do lado da oposição, tudo é fundamento de crítica e tudo pode ser melhorado, facilitando a posição em debate, uma vez que a continuidade do trabalho não é, à primeira vista, tão sedutor para o eleitor. Não obstante o tempo de debate ter sido alargado, quando comparando com os outros debates, de fora, ficaram, ainda, temas importantes como a justiça, o ambiente, a cultura, a lei da eutanásia, a revisão constitucional e as políticas internacionais. Temas estes que, infelizmente, não deveremos ver esclarecidos até ao dia 10 de março.
Ainda na sombra do antedito, não deixemos de frisar o seguinte, estamos na campanha do chega, do basta e do já não dá para continuar. Na campanha da crítica e da necessidade de mudança. Das ideias vagas, da magia fiscal, da falta de concretização e das promessas de tudo recheadas de nada. Infelizmente, não estamos na campanha da clareza, do respeito e da moderação. Ao longo do debate, por diversas vezes, os moderadores tiveram de alertar Luís Montenegro sobre a sua conduta, chegando ao ponto de Clara de Sousa ter pedido respeito. Este comportamento não é característico de Luís Montenegro, é antes característico de uma direita extremista e populista. Estará Montenegro a aproximar-se deles ou só quis piscar o olho ao eleitorado de extrema-direita que gradualmente foi perdendo? Vale tudo?
(…) Estamos na campanha do chega, do basta e do já nao dá para continuar. Na campanha da crítica e da necessidade da mudança. Das ideias vagas, da magia fiscal, da falta de concretização e das promessas de tudo recheadas de nada. Infelizmente, não estamos na campanha da clareza, do respeito e da moderação.
Telma Barbosa
Portugal precisa mais que nunca de um Primeiro-Ministro que decida, que seja consciente, que não prometa mundos e fundos e que, acima de tudo, se afaste da extrema-direita. “À mulher de César não basta ser honesta…”
A palavra é de:
Telma Barbosa

