Nem tudo o que é de esquerda rema para o mesmo lado
No debate entre Pedro Nuno Santos (PS) e Mariana Mortágua (BE) ficou claro que, apesar de algumas similaridades, existem diferenças na ingenuidade e pragmatismo com que olham para os desafios que enfrentam o país.
A primeira grande diferença entre as visões dos dois candidatos está relacionada com o aumento das despesas com o setor da defesa e, mais especificamente, com o armamento. Mariana Mortágua defende que esse aumento não é justificado, sendo baseado em mentiras e propaganda. Este pensamento parece ir contra todos os acontecimentos geopolíticos recentes, em que a Europa, por não ter poderio militar suficiente, está a ser ignorada em assuntos que a afetam diretamente, como é o caso da guerra na Ucrânia. Tendo isto em conta, Pedro Nuno Santos defende que o aumento dos gastos em defesa é necessário para a independência estratégica europeia e para a manutenção do projeto europeu. Uma nota positiva é que ambos os candidatos defendem que não as despesas sociais não devem ser alienadas, evitando que os cidadãos sofram durante este processo, o que possivelmente seria uma fonte de força para a extrema-direita.
As disparidades também são notórias no que toca a crise de habitação. Pedro Nuno Santos defende que o caminho a tomar passa por fomentar a oferta de habitações, através de apoios à construção, especialmente para fogos com custos controlados. Esta é uma solução mais realista do que proposta por Mariana Mortágua, que passa pela imposição de tetos máximos nas rendas. Tal como o líder do PS nota, a aplicação de limites no preço das rendas pode até agravar o problema da habitação, já que esta medida pode criar incentivos para que os proprietários retirem os imóveis do mercado.
Ignorando estas diferenças, é de louvar que o debate entre os líderes do PS e BE tenha sido caracterizado por uma relativa cordialidade (sempre necessária e ultimamente ausente na política portuguesa) e pela clara apresentação e defesa de propostas para o país, independentemente da sua adequação.
A palavra é de:
Vasco Branco

