Análise – PS vs PSD

O que sobra quando se apaga a encenação?

O debate entre Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro revelou duas formas muito distintas de encarar o exercício da política em Portugal. De um lado, uma candidatura que se apresenta como herdeira da governação recente, empenhada em defender o que está feito, apesar das fragilidades evidentes; do outro, uma proposta que reconhece a gravidade dos desafios e procura, com frontalidade, devolver ambição e justiça à ação política.
Enquanto cidadão e médico, não posso deixar de sublinhar um dos pontos mais críticos: a Saúde. Luís Montenegro admitiu que falhou na promessa de garantir mais médicos de família. Não há como contornar esse facto — o SNS está hoje mais fragilizado, com mais utentes sem médico de família, tempos de espera intoleráveis e profissionais exaustos num sistema em esforço crónico. A resposta foi vaga, sem prazos, sem plano, apenas com promessas de “continuidade”. A única certeza foi o falhanço claro do “O Plano de Emergência e Transformação na Saúde”. O país precisa de mais do que isso! Precisa de compromisso real e investimento sério nos profissionais de saúde.
Pedro Nuno Santos soube evidenciar esta falência com clareza e, mais importante, sem cair em retórica simplista. A sua postura foi crítica, mas construtiva, deixando claro que, ao contrário da AD, o PS não pretende avançar com parcerias público-privadas sem uma fundamentação rigorosa. A saúde dos portugueses não pode ser laboratório de experiências ideológicas — exige seriedade, evidência científica e coragem política.
Noutros temas, a diferença foi também nítida. Na habitação, Montenegro apresentou medidas que, à superfície, parecem generosas, mas que na prática beneficiam uma minoria — os poucos jovens que ainda conseguem aceder ao crédito. Pedro Nuno Santos teve o mérito de enquadrar a questão no contexto mais amplo da desigualdade estrutural. Prometer isenções fiscais sem garantir rendimentos dignos é vender ilusões.
Sobre as pensões e a sustentabilidade da Segurança Social, é inevitável a preocupação com as intenções da AD. A criação de um grupo de trabalho presidido por alguém que defende abertamente a capitalização parcial do sistema não é neutra. A recusa do PS em aceitar este caminho — e o compromisso de Pedro Nuno Santos em revogar essa iniciativa — são garantias de que o modelo público de pensões não será colocado em risco.
Mas talvez o mais importante do debate tenha sido o que ele revelou sobre a ideia de estabilidade. Montenegro repetiu que está “aqui para governar”, mas foi o seu Governo quem escolheu provocar eleições antecipadas. Pedro Nuno Santos teve a ousadia de colocar esta contradição em cima da mesa: quem causa a crise não pode reclamar o monopólio da estabilidade.
A política não se faz apenas de intenções — faz-se de escolhas. E neste debate, Pedro Nuno Santos mostrou que está disposto a fazer as escolhas difíceis, não as populares. Rejeitou a complacência, enfrentou as críticas e falou para o futuro com ideias concretas.
O país precisa disso. De alguém que compreenda a complexidade dos nossos problemas — na saúde, na habitação, na coesão social — e que tenha a coragem de agir.
Não se trata de partidos, trata-se de rumo. E ontem, ficou claro qual é o lado que acredita que Portugal pode — e deve — fazer melhor.

A palavra é de:

João Figueiredo