Fogaceiras

Por Lia Sousa e Jorge Silva

Falar do dia 20 de janeiro no concelho de Santa Maria da Feira, tem um significado especial.
Falamos da Festa das Fogaceiras, que não é apenas uma tradição religiosa ou um feriado municipal, mas sim a identidade e cultura de um povo e de uma região.
Para percebermos a origem desta tradição, é necessário recuarmos mais de 500 anos atrás, mais precisamente ao ano de 1505. Numa época em que o nosso concelho foi fortemente afetado e devastado pela peste, em troca de proteção, a população prometeu ao mártir S. Sebastião a oferta de um pão doce único, a Fogaça. Passados cinco séculos, este voto continua a ser cumprido anualmente no dia 20 de janeiro, sendo muito mais que um feriado municipal, é uma das tradições mais antigas do país, algo que deve orgulhar todos os Feirenses. Para além de todo o contexto histórico, nos dias de hoje é cada vez mais importante não esquecermos as nossas origens e identidade, mantendo-as bem presentes nas atuais e futuras gerações, algo de extrema importância no contexto atual em que vivemos, em que uma parte da comunidade está tendencialmente desligada das suas raízes. Para Santa Maria da Feira, esta celebração tem claramente um forte significado, que para além da devoção ao mártir S. Sebastião, retrata o espírito lutador dos Feirenses e a união dos mesmos, em prol do benefício comum. A Festa das Fogaceiras é claramente um símbolo de união e de identidade coletiva, no território feirense, algo que deve ser preservado e passado também à juventude, para que esta tenha conhecimento das suas origens e se sinta próxima das mesmas, permitindo assim a passagem e preservação de um autêntico testemunho cultural.
Para além de todo o impacto da comunidade, pensamos que o evento tem igualmente um papel de elevada importância para o comércio e economia local, atraindo milhares de pessoas à cidade medieval nesse dia histórico, o que acaba por valorizar quem mantém também as tradições vivas, por exemplo, através da produção da Fogaça, o ex-líbris nesse dia e na gastronomia da região. Podemos considerar que este pão doce, que representa simbolicamente as quatro torres do Castelo de Santa Maria da Feira, tem efetivamente um impacto de grande dimensão não só na religião, mas também na gastronomia, cultura, identidade e no comércio local.
Ao mesmo tempo, o dia das Fogaceiras é sempre um dia de grande visibilidade para o concelho, que recebe anualmente um elevado número de visitantes, que assistem às celebrações, com destaque para a procissão, onde 250 meninas vestidas de branco com faixas coloridas à cintura e de fogaça à cabeça, cumprem a tradição e renovam o voto ao mártir S. Sebastião. As centenas de meninas não transportam apenas um símbolo gastronómico e cultural, carregam a promessa de uma comunidade que se recusa a esquecer as suas raízes num mundo cada vez mais globalizado e impessoal, sendo o reflexo de que a união alcançada há mais de 520 anos no nosso território, através de um voto de fé, é cada vez mais precisa e importante. O impacto social é evidente e claro, a festa une gerações. A neta que hoje desfila com a emblemática Fogaça à cabeça faz o mesmo caminho que a sua avó fez há décadas, renovando um pacto de pertença que nenhuma tecnologia conseguirá substituir ou apagar.
No fundo, a Festa das Fogaceiras é a prova viva de que o progresso de um concelho não se mede apenas pelo presente e modernidade, mas também pela força das suas tradições. A participação ativa dos jovens é um dos pontos chave, permitindo que conheçam o passado para dar sentido ao presente, permitindo-nos enfrentar os desafios da atualidade e do futuro com consciência das nossas raízes, prova de que a resiliência de uma comunidade depende da sua união.
Ao preservarmos este conhecimento histórico, não estamos apenas a olhar para o passado, mas sim a desenhar o caminho para um futuro onde o progresso tecnológico caminhe lado a lado com a identidade e cultura local.
Afinal, uma terra que conhece as suas raízes é uma terra que sabe para onde quer crescer porque, para traçar o futuro, precisamos de conhecer o passado.