Por Vasco Branco
A Black Friday, ideia importada nos Estados Unidos da América, é cada vez mais premente na economia portuguesa, com várias empresas a baixarem os preços dos seus produtos e serviços de forma significativa, abrindo a época de compras natalícias e apresentando grandes vantagens quer para os consumidores quer para os vendedores. À primeira vista, a Black Friday é um período em que todos os intervenientes saem a ganhar (excetuando as situações de publicidade enganosa, que também proliferam neste período). No entanto, a Black Friday pode representar um perigo para o comércio local.
A Black Friday caracteriza-se pela quantidade e magnitude dos descontos sobre os produtos/serviços no mercado, pelo que favorece as empresas com maior margem de lucro e maior capacidade de investimento em marketing. Maiores margens de lucro permitem a adoção de maiores descontos, contribuindo para a empolgação do período, enquanto maior capacidade de investimento torna possível a transmissão dos descontos de uma empresa a um maior número de consumidores potenciais. Desta forma, são as grandes empresas que mais beneficiam da Black Friday, já que normalmente apresentam maiores margens de lucro e capacidade de investimento em marketing. Por outro lado, as pequenas empresas e o comércio local, que não têm meios para lidar com a avalanche de descontos, estão em grande desvantagem. Tudo isto leva a um desvio do fluxo de comércio das pequenas empresas e comércio local para as grandes empresas.
É possível argumentar que esta perda de vendas é negligível, durando apenas uma semana por ano. Contudo, é necessário ter em conta que os descontos da Black Friday levam as pessoas a realizarem compras que não estavam previstas. Estas compras impulsivas significam a redução de compras futuras, que, num cenário sem descontos intensivos e generalizados, poderiam ser feitas a estabelecimentos de comércio local. Isto resulta numa redução do volume de negócios num período mais alargado, principalmente para empresas focadas em produtos com maiores vidas úteis, como bens tecnológicos e outros bens de elevado valor acrescentado. Além disso, tendo em conta o carácter de pequena dimensão das empresas de comércio local, cada venda tem uma importância não negligível na saúde financeira destas empresas. Mesmo que o impacto se cingisse à semana da Black Friday, a perda de vendas associada pode levar à passagem do que seria um ano lucrativo para um ano caracterizado por prejuízo.
Este impacto negativo da Black Friday é relevante para a vida da nossa sociedade, principalmente a nível local. Quando o comércio local enfraquece, existem repercussões para o resto da economia local. Nomeadamente, há menos emprego, uma menor arrecadação de impostos municipais e uma diminuição da vitalidade das áreas comerciais. Assim, é fundamental defender o comércio local deste efeito preverso. É necessário nivelar o jogo, publicitando os produtos do comércio local e apoiando estas empresas em períodos de feroz competição a nível de preços. A responsabilidade desta defesa do comércio local recai sobre as autarquias, que normalmente olham para esta parte do tecido empresarial como algo acessório. E isto é um erro.
