Por António Pinto
O Natal é uma época festiva celebrada em várias partes do mundo e tradicionalmente associado ao nascimento de Jesus Cristo, assinalado todos os anos no dia 25 de dezembro. Em Portugal, esta celebração remonta ao século III. Como sabemos a palavra “Natal” deriva da palavra “natalis” em latim, que significa “nascimento”. Esta época, é muito mais do que uma festa religiosa, tornou-se ao longo do tempo, um fenómeno com um grande impacto social, na sociedade contemporânea. Na minha opinião, a quadra natalícia revela tanto o melhor como o pior da sociedade, oscilando entre gestos genuínos de solidariedade e ajuda, como por práticas marcadas pelo consumismo excessivo.
Durante este período, observa-se um aumento significativo de campanhas solidárias dirigidas às pessoas em maior vulnerabilidade social, geralmente com uma grande adesão por parte de toda a comunidade. Estas iniciativas são promovidas por organizações como o Banco Alimentar Contra a Fome ou a Cáritas Portuguesa, que conseguem mobilizar milhares de pessoas. Contudo, sinto que esta preocupação surge de forma sazonal, uma vez que, durante o resto do ano, estas instituições continuam a enfrentar dificuldades semelhantes, mas sem a mesma visibilidade ou apoio, por parte da sociedade. Do meu ponto de vista, esta sazonalidade da solidariedade evidencia a predominância de respostas pontuais, muitas vezes marcadas pela emoção associada às quadras festivas, em detrimento de uma solidariedade crítica e contínua, orientada para a transformação das estruturas que produzem e reproduzem a pobreza. Neste sentido, torna-se fundamental reforçar a sensibilização da comunidade ao longo de todo o ano, na promoção de uma participação da comunidade mais constante e na defesa de políticas públicas que garantam respostas estáveis e duradouras às situações de vulnerabilidade social.
O Natal associa-se cada vez mais ao consumismo, devido à pressão social para compras de presentes e a busca por um “Natal perfeito”, que pode levar muitas famílias ao endividamento, uma realidade que reflete o peso económico desta quadra e agrava vulnerabilidades já existentes. Na minha perspetiva, esta dinâmica é ainda mais evidente
pelo início precoce das campanhas comerciais em outubro e novembro, que transformam uma época de reflexão e partilha numa corrida desenfreada ao consumo, dominada por promoções e interesses económicos que ofuscam o verdadeiro espírito da celebração.
Já no plano jurídico, o Presidente da República concede, habitualmente perto do Natal, indultos de natureza humanitária, ao abrigo do artigo 134.º, alínea f), da Constituição da República Portuguesa, que lhe confere competência para “indultar e comutar penas, ouvido o Governo”, o que simboliza valores de perdão e humanidade. Além de no presente ano de 2025, Marcelo Rebelo de Sousa, não o ter efetivado, como se comprova através da notícia “Marcelo despede-se do cargo sem dar indultos a reclusos no último Natal” (eco-sapo). Ainda assim, considera-se fundamental que estas decisões sejam tomadas com rigor e sentido de justiça, de forma a garantir que o simbolismo da quadra não se sobreponha aos princípios da equidade e da igualdade perante a lei.
Importa também referir o papel de organizações como a Amnistia Internacional, defensora dos Direitos Humanos de forma contínua ao longo do ano, através de relatórios, campanhas e ações de sensibilização. No entanto, é frequente que apenas em períodos simbólicos, como o Natal, se intensifique a atenção pública para temas como a Dignidade Humana, a Justiça e a Liberdade, revelando, a meu ver, que a sociedade contemporânea reage mais à emoção do momento do que a um compromisso permanente com os valores que afirma defender.
Assim, o Natal continua efetivamente a exercer uma influência significativa na sociedade promovendo simultaneamente atitudes solidárias e comportamentos excessivos e contraditórios. Por isso, cabe a cada ser humano refletir sobre a forma como vive esta quadra, procurando que os valores de empatia, justiça e responsabilidade social não se limitem a um período específico do ano, mas sejam integrados de forma constante na vida em comunidade.
